20 / Mar2017

“SEE NOW, BUY NOW”, UMA CRÍTICA PESSOAL

Moda é cíclica, e toda tendência diz adeus para, algum dia, reviver com força total. Toda pluma, babado e grafismo volta. Há uma tendência, porém, que não tem deixado o mundo da moda desde o Outono 16: é o modelo “see now, buy now”.

O estratagema, que começou meio como uma experiência nessa indústria que se divide entre a voracidade e a arte, baseia-se numa abordagem diretíssima do consumo. Nele, não há necessidade de a clientela esperar todo um semestre após o desfile para comprar suas peças prediletas – antes do “see now, buy now”, as roupas só chegavam às lojas cerca de seis meses depois dos shows. Agora, é tudo veloz como a luz! Os estilistas permitem aos clientes comprar as peças logo em seguida às apresentações, o que é, precisamos admitir, bem sedutor: aquela bota incrível que bloggers e personalidades de Instagram clicam no desfile e postam, cravejadas de hashtags que expressam seu desejo, fica disponível para você no dia mesmo em que cruza a passarela nas pernas esbeltas de uma it modelo.

Particularmente, acho que essa ideia de encurtar o tempo para o consumo pode, sim, evitar o desgaste de uma imagem. Por vezes, vemos tanto, todo o tempo, uma determinada peça de desfile, que ainda não chegou às lojas, que talvez nos cansemos dela e não a queiramos comprar depois. Ok, isso é possível. Mas quem faz a moda de uma marca é o estilista, e é preciso proteger o seu talento criativo. O ritmo, que já era intenso, fica insano nesse novo modelo. Inúmeros estilistas, inclusive, deixaram de participar desta edição da SPFW por não conseguirem aderir à modinha!

Aliás, nesses tempos de crise, esta é uma tendência perigosamente dispendiosa: no modelo convencional, os lojistas fazem as encomendas das peças apresentadas no desfile ao showroom, que recebe por elas e as providencia no tempo certo. Agora, a marca tem de se adiantar, aprontar as peças sem quaisquer garantias de compra e disponibilizá-las em seus showrooms imediatamente.

Eu, realmente, não acho saudável nem responsável o mero risco do desperdício, nesse momento econômico mundial tão vulnerável e fragilizado! Não acho que devamos nos arriscar desperdiçar mão-de-obra, matéria-prima, criatividade e tempo. Para qualquer marca, não é tarefa das mais fáceis fazer apostas e produzir com base nelas antes de colocar o desfile na passarela, de modo que os consumidores possam comprar imediatamente! É difícil “adivinhar”, em meio a tantas peças, se, de fato, serão mesmo esta bota, este colete e este vestido que cairão no gosto do varejo!

Assim, penso que, sendo um jogo com tão alta probabilidade de erros, deve ser jogado com muita parcimônia, ou até simplesmente esquecido. Há alguns meses, o talentosíssimo Raf Simons deixou a direção criativa da Dior justamente devido ao ritmo frenético do trabalho, que o impedia de pensar e amadurecer suas ideias – ritmo “normal”, ready-to-wear e alta costura, auxiliado por uma grande equipe, mas sem “see now, buy now”. Imagine num “see now, buy now”! O que não podemos é, além de arriscar perder investimento e trabalho, perder mentes criativas em nome da pressa doentiamente alimentada pelas redes sociais; tampouco nos considerarmos adivinhos infalíveis, pois o mercado é, como a vida, surpreendente.

Acalmemo-nos! #appreciatenow #supportthebeautifulminds #nowasteofmoneyorwork

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